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“Sem dinheiro público não haverá muita ciência no Brasil”

O físico, professor da UFPE e ex-ministro da C&T, Sérgio Rezende, fala à edição especial do Jornal da Ciência impresso sobre a importância da ciência brasileira para o desenvolvimento do País

Fonte: Jornal da Ciência

A pressão da comunidade científica sobre o governo aos poucos tem conseguido chamar a atenção dos políticos para a gravidade dos cortes orçamentários. E isso salvará a área de cair em um precipício. Essa é a avaliação otimista do físico Sérgio Rezende, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que foi ministro da Ciência e Tecnologia de 2005 a 2010.

Em entrevista ao Jornal da Ciência impresso, edição especial de dezembro, Rezende afirma que o Brasil não teria a força internacional que tem hoje se não tivesse criado o sistema de formação de pesquisadores nas últimas cinco décadas e difundido esse sistema pelo País. Por ser uma área nova, a ciência brasileira ainda é pouco compreendida como uma área estratégica, o que explica o orçamento baixo para a área, "um desastre”, segundo ele. "Mas tenho esperança de que isso seja revertido”, diz.

Jornal da Ciência – "Ciência não é gasto, é investimento” é um mantra que tem sido muito repetido ultimamente. Quanto, de fato, a ciência brasileira contribui para a economia e o desenvolvimento geral do País?

Sérgio Rezende – É difícil mensurar quanto a economia brasileira seria pior se não tivesse ciência. Mas isso não é só no Brasil, é em todo o mundo. O que todos sabemos é que os países que têm o maior PIB têm uma produção científica alta. Então, eu diria que o Brasil não teria a economia que tem hoje, a 9ª do mundo, se não tivesse criado seu sistema de formação de pesquisadores, por meio dos programas de pós-graduação, e se não tivesse a ciência tão difundida no País. Nós tínhamos no começo da década de 1950 cerca de 200 pesquisadores com doutorado – hoje somos mais de 100 mil. Certamente não teríamos o nível de desenvolvimento que temos hoje se não tivéssemos essa quantidade de pessoas fazendo pesquisa pelo País. As pessoas acham que falta um prêmio Nobel ou uma descoberta marcante para a ciência brasileira ser mais importante. Na verdade, o resultado da atividade em ciência é difuso, mas a gente tem muitos exemplos de várias dimensões que mostram o quanto a ciência é importante para o desenvolvimento do Brasil.

JC – O que a ciência brasileira desenvolveu nas últimas décadas que mais impactaram o País? Quais exemplos mais significativos?

SR – Os exemplos que têm maior impacto econômico são no agronegócio. O Brasil hoje é o maior produtor mundial de alimentos e isso não se deve apenas à nossa grande extensão territorial e clima favorável. Mas sim, em grande parte, ao trabalho feito pelas dezenas de centros de pesquisa da Embrapa, em cada região do País, com avanços importantes para o aprimoramento das espécies, adaptá-las a regiões, e o melhoramento contínuo na produção. O Brasil é o maior produtor de soja, mas há 40 anos não tínhamos soja. E a soja é produzida em uma região que era improdutiva, o Centro Oeste. Após muitos desenvolvimentos, alguns mais sofisticados como a descoberta da Johanna Döbereiner, de fixação de nitrogênio. Outro exemplo é a produção de frutas no Vale do São Francisco. Hoje essa região é a maior exportadora de frutas do Brasil, e não tinha qualquer produção há 30 anos. Isso se deve à adaptação de variedades.

Na área da saúde, temos o desenvolvimento de vacinas, medicamentos, a descoberta recente, aqui em Pernambuco, usando tecnologias sofisticadas, da correlação entre a zika e a microcefalia. Em áreas de alta tecnologia, temos exemplos principalmente em tecnologia da informação. Em Recife, por exemplo, tem o Parque Tecnológico de empresas de software, que empregam mais de 5 mil pessoas e que é resultados de um trabalho feito na Universidade Federal de Pernambuco, que estimulou os jovens pesquisadores a criarem empresas de desenvolvimento de software, em áreas como jogos. Isso atrai empresas maiores para a região, por conta dos recursos humanos disponíveis. Os parques tecnológicos que temos aqui no Brasil são resultados, principalmente, de ação de professores das universidades: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, etc..

JC - Estamos em uma crise de investimentos desde 2014, cada vez mais grave e sem perspectivas de mudanças. Como o senhor avalia essa marcha a ré? Para onde iremos com essas políticas?

SR - Isso é um desastre. Mas como sou uma pessoa otimista, estou sempre acreditando que, a pesar de estarmos nos aproximando do precipício, não vamos cair nele. Porque tem havido reação de várias formas, da comunidade científica, essa reação tem aumentado e tem chamado a atenção de pessoas do governo e do parlamento. Esse ano, por exemplo, em agosto, foi anunciado que o CNPq só teria recursos para pagar as bolsas até agosto. Isso ganhou grande repercussão e o CNPq conseguiu o recurso adicional e não se falou mais no assunto – estamos em novembro, e as bolsas continuam sendo pagas. Os protestos acabam produzindo efeito. Minha esperança é que essas manifestações façam com que a proposta de orçamento para 2018, que sabemos que é muito ruim, por trazer um corte grande no orçamento já pequeno do MCTIC, seja melhorada. O orçamento, afinal das contas, é votado pelo Congresso Nacional. O desastre já está aí. Hoje conhecemos muitas pessoas que estão com poucos recursos para pesquisa, e isso desestimula os jovens a seguir a carreira científica, leva pesquisadores a desistirem do Brasil. Mas tenho esperança de que isso seja revertido.

JC – Por que a ciência não é ainda uma área estratégica para o Brasil como para os EUA, para a Coreia?

SR - Não temos a cultura, porque tudo na ciência é novo no Brasil. Nossa pós-graduação foi criada há 50 anos e muitas das pessoas que estão hoje no Congresso, em posições de influência nas empresas e no governo não passaram por uma universidade que tinha ensino em tempo integral, pesquisa e desenvolvimento, inovação. Então, não valorizam isso. E isso se retroalimenta, numa ausência de cultura científica. Ao contrário dos EUA, Alemanha, Japão, Coreia e mais recentemente a China, que são países que perceberam a correlação entre desenvolvimento econômico e científico. No Brasil, como isso não é claro, não é valorizado e, como isso, temos um orçamento pequeno para C&T.

JC – Onde estaríamos, em termos de desenvolvimento, se os investimentos na área tivessem continuado a trajetória crescente pré-2014?

SR - Eu não diria que estaríamos muito mais a frente porque os prejuízos dos cortes orçamentários se refletem a médio prazo, não são imediatos. Nos anos de orçamentos maiores, todos os grupos de pesquisa no Brasil que tinham competência para fazer pesquisa tiveram projetos aprovados contemplando infraestrutura. Graças a isso, o Brasil tem hoje laboratórios sofisticados em todas as áreas e em toda extensão do Brasil. Isso faz com que a infraestrutura esteja aí, e as pessoas estejam trabalhando.

Outro fator importante é que como quase metade da ciência brasileira está em São Paulo, e a Fapesp não sofreu cortes significativos de orçamento, então a ciência brasileira como um todo fica bem representada, porque uma parte dela continua sendo financiada. Isso ocorreu também na década de 1990, mas naquela época não haviam muitas Fundações Estaduais com muitos recursos. As Fundações do Rio de Janeiro e Minas Gerais têm sofrido bastante, mas outras estão indo bem pelo País. Além disso, uma vantagem de termos várias agências de financiamento – CNPq, Capes, Finep no âmbito federal – quando uma vai mal, o outro colabora para projetos não serem interrompidos. O financiamento para a ciência no Brasil não foi interrompido. Ele diminuiu. Se tivesse sido interrompido, estaríamos em uma situação muito mais grave.

JC – Na sua opinião, o problema da ciência no País é apenas financeiro? Ou é preciso pensar além do orçamento?

SR - É lógico que a ciência brasileira pode fazer mais. É possível os cientistas se envolverem com problemas mais desafiadores, tanto de pesquisa básica quanto de pesquisa aplicada. O sistema brasileiro não é tão insistente como deveria ser, precisamos de processos de recrutamento melhores e avaliação de rendimento mais rígidas. Porém, sem dinheiro público não haverá muita ciência no Brasil. Principalmente em ciência básica. Em qualquer lugar do mundo ela é financiada com dinheiro público. Se houver um corte ainda mais dramático, a ciência vai sofrer um prejuízo irreversível.

 

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