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Com o tema 'A medicina nuclear na oncologia', IPEN se destaca no Pint Of Science

Instituto é destaque na última noite, no Bar Galeria 540, na temática 'A radiação voltada para o diagnóstico e tratamento do câncer'

O uso da radiação para a melhor acurácia diagnóstica e tratamento do câncer, incluindo os avanços em Radioterapia e Medicina Nuclear, foi o tema da última participação do IPEN no Paint Of Science São Paulo, nesta quarta-feira, 22, no Galeria 540. O pesquisador Emerson Bernardes, do Centro de Radiofarmácia (CR) do Instituto, a radioterapeuta Maria Letícia Gobo e o jornalista Theo Ruprech, da revista Saúde, foram os palestrantes.

Farmacêutico com doutorado em Imunologia Básica e Aplicada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), Bernardes surpreendeu o público ao falar de uma temática tão difícil e delicada – o câncer – de maneira simples e didática. Para explicar conceitos como "microambiente tumoral”, "perturbação”, recorreu a uma analogia no mínimo curiosa, o bar, e pediu aos presentes que exercitassem sua imaginação.

"Todo mundo escuta falar de tumor, mas alguém tem ideia do que é um microambiente tumoral?”, perguntou Bernandes. Antes de responder, ressaltou a importância de explicar algumas características de um microambiente para então explicar o desenvolvimento de moléculas que vão servir para diagnóstico e terapia. O bar deixava de ser apenas o espaço físico para se tornar um microambiente imaginário, conforme analogia:

"Imaginem que cada um de vocês é uma célula tumoral. Agora, a gente tem o microambiente no bar, que é o microambiente tumoral. Imaginem que cada um precisa comer e beber. Tem alguém, o garçom, que traz a bebida e a comida. O mesmo acontece com o tumor: cada de vocês está lá, as células estão lá, e existe alguém – os vasos sanguíneos – que vão lá e levam o suprimento para o tumor. Pronto, o microambiente tumoral está preparado e organizado”.

Mas o garçom serve todo mundo, na mesma hora, e todos ficam satisfeitos? Foi a indagação do pesquisador para explicar que, no caso do tumor, nem todas as células ficam satisfeitas, algumas ficam com fome, outras bem alimentadas. "Essa é uma característica importante para dar a noção do que é um microambiente, fazendo uma correlação entre o nosso ambiente aqui, hoje, e o microambiente tumoral”, acrescentou.

De acordo com Bernardes, a partir dessa analogia é possível compreender um dos problemas mais comuns em microambientes tumorais: a resistência a tratamentos. "Aquelas células que ficam bem no cantinho, escondidas, e que não são bem servidas, são as mais resistentes, as que depois causam o maior problema. E cada um desses aspectos de um tumor é utilizado no desenvolvimento de radiofármaco, seja pra terapia, seja pra diagnóstico”, ressaltou.

Para explicar como uma molécula age na terapia ou no diagnóstico, o pesquisador seguiu a analogia: "Eu quero que todos vocês, as moléculas, vão embora. O que eu faço? Paro de servir, mando o garçom embora. Vale para o tratamento tumoral; se eu interrompo o suprimento, a alimentação do tumor, essa seria a melhor forma de interromper seu crescimento. Mas pode não funcionar, e sabem por qu?”, instiga Bernardes.

Ele indaga o que aconteceria se nesse ambiente o garçom fosse embora, mas deixasse uma fresta, e as pessoas descobrissem que poderiam ir lá pegar a bebida. "É o que tumor faz, se o garçom foi embora, ninguém me serve, eu vou me servir. É assim que as células se comportam, o tumor acha maneiras de superar essas dificuldades que acontecem naturalmente durante o crescimento. O garçom foi embora, mas não resolveu, havia fresta”.

O segredo, segundo o pesquisador, está em achar uma mensagem para atingir o maior número de pessoas, maior numero de moléculas. E assim ele introduz o conceito de uma molécula que vai interagir com aquilo que tem de comum no maior número de pessoas (na analogia, representando célula tumoral). "Qualquer mensagem que eu atinja o maior numero de pessoas, o maior numero de células, isso pode ser utilizado para terapia ou diagnostico”.

Que molécula é essa? Qualquer molécula que é capaz de interagir com um receptor que seja comum a cada um da plateia. Imaginando algo comum, como a bebida, Bernardes ressalta que sempre terá aquele que não quer beber. "Você pode ter uma molécula que atinja a maioria, mas sempre tem um que escapa. O que é comum, que a gente usa para tratar ou diagnosticar. O que é comum à maioria das células? É o que estamos desenvolvendo pesquisando”.

Quanto mais específica for uma molécula ou for comum um alvo, que permita diferenciar aquilo que é tumor daquilo que é normal, maior a chance que eu tenho de interromper o crescimento ou induzir à morte uma célula tumoral. Esse é o desafio. Então, quando em radiofármacos, estamos falando de uma molécula, que é capaz de interagir com o maior número de células, porque ela se liga a um receptor específico que é comum a todas elas. Eis o conceito de fármaco”.

Depois de falar de tumor e fármaco, Bernardes brincou que iria "assassinar” a física nuclear para falar de radiofármaco. Usou novamente a mesa de bar para explicar o que acontece no núcleo de um átomo. Lembrando que células que são formadas de moléculas, e estas, por sua vez, são formadas de átomos, Bernardes chegou ao conceito de "perturbação”.

"Uma mesa, uma cadeira, uma pessoa; uma mesa, duas cadeiras, duas pessoas, e assim sucessivamente. Cada mesa representa um elemento presente na natureza. Esses elementos são instáveis. Agora, imaginem essa situação no bar, uma mesa pequena, para três cadeiras, três pessoas, e eu coloco à força pessoas a mais. Pior: se essa pessoa não se encaixa nessa mesa. Há uma perturbação, e é preciso atingir a estabilidade novamente”, explicou.

É assim que acontece no núcleo de átomo de um radioisótopo. Tem-se algo que perturbou o equilíbrio, energeticamente instável, e precisa decair de alguma forma e emitir energia. E segue a analogia: "Imaginem que eu tenho um radioisótopo, que é pra diagnóstico, e eu preciso saber exatamente quando esse elemento volta ao estado natural. Eu preciso detectar isso. Preciso que a energia emitida não seja barrada pela matéria”.

Bernardes finalizou dizendo que os radioisótopos usados para diagnóstico, para atingirem o equilíbrio, emitem partículas maiores que são capazes de causar dano à matéria. "Eu tenho um microambiente e uma molécula que seja comum à maioria das células. Se eu, agora, combino essa molécula que vai atingir as células tumorais com um radioisótopo, que é capaz de decair emitindo uma radiação, uma energia que não interage com a matéria, eu tenho métodos de detectar e de calcular onde foi o decaimento, onde estava o radioisótopo”.

Em outras palavras, é a capacidade de mapear tumor onde há uma célula com característica anormal. "Desde que eu combine uma molécula com capacidade de atingir esse alvo específico que eu tive que determinar, desde que eu use o radioisótopo adequado quando decai para atingir estabilidade, ele decaia atingindo uma energia que não interage com a matéria, e que eu sou capaz de determinar fora do corpo. É o conceito de fármaco utilizado para diagnóstico usando energia nuclear, energia que sai do núcleo porque eu perturbei o equilíbrio desse núcleo”.

Para terapia, o conceito é o mesmo: utiliza-se a mesma molécula que chega à célula tumoral, eu coloco o radioisótopo no núcleo maior, que ao atingir vai emitir partículas que não vão atravessar a matéria. "Ele vai sair trombando em tudo o que estiver pela frente dentro da célula, introduzindo danos a essa célula. Esse é o uso da radiação para terapia”, concluiu.

Após sua apresentação, foi a vez da médica Maria Letícia Gobo, residente em radioterapia no A. C. Camargo Câncer Center, que falou sobre o tema "Do cobalto à era da radioterapia que preserva as células saudáveis”. Encerrando a noite, o jornalista Theo Ruprecht, da revista Saúde (Editora Abril), discorreu a respeito de como a "Divulgação Científica Sobre Câncer Nas Pautas Jornalísticas Da Revista Saúde”. Esse Bar do Pint Of Science foi coordenado pelo jornalista Moura Leite Neto, assessor de comunicação do A. C. Camargo Câncer Center.

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