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Pernambuco na medicina de Ponta

Fonte: Diário de Pernambuco

A medicina nuclear vai até onde outros exames diagnósticos não conseguem ir. Ainda pouco conhecida da população, a especialidade médica que utiliza pequenas quantidades de substâncias radioativas para desvendar o que acontece no metabolismo humano cresce no mundo. Mesmo assim, no Brasil, a especialidade ainda é subutilizada, segundo a própria Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear. No país, são 430 serviços – enquanto em países como a Argentina são três vezes mais – e 700 profissionais, quando o ideal seriam 2,1 mil. A transformação desse cenário passa por investimentos na área e desbucrocratização na importação de equipamentos e radiofármacos, aponta o especialista em medicina nuclear Paulo Almeida Filho, em entrevista ao Diario. Professor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e médico assistente do Real Hospital Português, Paulo é o único brasileiro integrante de um grupo que pesquisa a utilização de uma nova substância no diagnóstico de infecções, realizada em 12 países, com apoio da Agência Internacional de Energia Atômica, entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). 

"O diagnóstico precoce é fundamental” 

O senhor é o único pesquisador brasileiro integrante de um estudo em desenvolvimento na Agência Internacional de Energia Atômica, sediada em Viena, na Áustria. Pode nos explicar no que consiste essa pesquisa?
A Agência Internacional de Energia Atômica é uma entidade subordinada à Organização das Nações Unidas (ONU) dedicada a todas as áreas que usam a radiação pacífica. Dentro da agência, existe uma divisão de medicina nuclear, uma especialidade de imagem que usa pequenas quantidades de material radioativo para fazer diagnóstico. A divisão realiza estudos multicêntricos, que envolvem vários países, e fui convidado para fazer um trabalho entre 2011 e 2013. Esse trabalho, com mais de 5 mil pacientes, resultou em uma publicação na The Journal of Nuclear Medicine, a revista de medicina nuclear mais importante do mundo. E também foi eleito o melhor pôster do Congresso Americano de Medicina Nuclear, em Saint Louis. Como esse trabalho deu certo, fui chamado para uma segunda pesquisa, cujo programa começou em 2014 e foi estendido até 2016. Ela envolve uma substância nova, o UBI, que se liga às bactérias que provocam infecção. Então, a gente consegue fazer o diagnóstico da infecção depois de uma cirurgia de coluna.

Qual o impacto do estudo para a população?

É importante detectar a infecção para determinar o tipo de tratamento. Nessas cirurgias, são colocadas próteses, que são um corpo estranho. Então, existe um risco potencial de infecção. Ele acontece de forma proporcional à condição social do paciente e à qualidade do hospital. O diagnóstico falso positivo é hoje um grande problema, pois leva o médico a retirar a prótese, e a pessoa fica um tempo incapacitada. Outro ponto é que, se a infecção não é descoberta, pode progredir e levar à morte. O diagnóstico precoce é fundamental. É um trabalho extremamente promissor. Até o fim do ano, devemos ter uns 150 pacientes no mundo participando da pesquisa.

Os acidentes com motocicletas são hoje uma epidemia. As vítimas lotam três em cada cinco leitos de emergências e UTIs. Pernambuco é hoje o 10º no país em óbitos do gênero. A pesquisa pode ajudar a reduzir esse índice?
Sem dúvida. O UBI pode ser utilizado tanto para infecções de coluna quanto para outras infecções. As fraturas expostas são comuns em acidentes de moto e elas são uma porta aberta para infecções. Muitos pacientes que sobrevivem ao trauma por acidente de motocicleta evoluem para uma doença chamada osteomielite, uma infecção no osso. O UBI vai ter um papel importante na avaliação desses pacientes. Os atuais exames de imagem não podem ser feitos logo após o acidente e retardam o diagnóstico da infecção. Já o UBI consegue atuar.

O PET/CT é considerado o maior avanço da medicina nuclear dos últimos 20 anos. Qual a importância dele para o tratamento de pacientes oncológicos?
É a ferramenta mais importante na imagem hoje na oncologia. Ela consegue fazer o diagnóstico dos tumores de forma bastante precoce, porque as doenças, os tumores, começam como um erro no metabolismo da célula. Depois é que vai haver alteração na morfologia da célula. A tomografia consegue captar a deformidade, enquanto para o PET basta apenas que o metabolismo esteja alterado. O PET também consegue avaliar de forma mais rápida a resposta ao tratamento. Quanto antes se faz o diagnóstico, maior a chance de curar. Quanto antes a resposta é avaliada, você analisa se é preciso mudar o tratamento.

O PET/CT foi incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) há cerca de um ano. Mesmo assim, há apenas um equipamento para cada 2 milhões de habitantes no Brasil, quando a ONU estima que o ideal seria o dobro. O que dificulta essa expansão do serviço?
Todos os estudos mostram a excelente relação custo-benefício do PET. No final, o tratamento do paciente é mais eficiente e mais barato, mas o exame em si é caro. O SUS começou a cobrir, mas de forma limitada. Nós, do Hospital Português, estamos próximos de ser credenciados pelo SUS para fazer, mas eles não têm recursos para isso. Os planos de saúde cobrem o exame, mas para algumas indicações. Nos Estados Unidos, fizeram um registro nacional de PET em oncologia, onde o médico poderia prescrever para qualquer tipo de câncer, com a obrigação apenas de responder a um questionário com os resultados. Com isso, foi provado que 38,5%, mais de um terço dos pacientes, tiveram o tratamento modificado depois do PET. Se considerado só o câncer de pulmão, isso subiu para 50%. É uma otimização no tratamento grande. Hoje em dia não se admite fazer tratamento oncológico sem PET, e as autoridades precisam entender.

Em outubro, durante o 29º Congresso Brasileiro de Medicina Nuclear, no Rio de Janeiro, foi discutida a subutilização da medicina nuclear no Brasil. O país é o 25º em exames realizados por ano no mundo. O que, historicamente, explica essa subutilização?
Até o começo dos anos 2000, a produção de material radioativo no Brasil era monopólio da União. O governo não produzia nem deixava produzir. Então, atrasamos muito. Agora estamos correndo atrás do prejuízo. Como somos um país heterogêneo, a maioria dos serviços de medicina nuclear é concentrada no Sudeste. Lá, os números são comparados aos de países desenvolvidos. Saindo do Sudeste, a expansão é lenta. Primeiro, por essa questão da queda do monopólio, e, segundo, por falta de educação médica na utilização dessa tecnologia e do desenvestimento geral na área. Mas a medicina nuclear tem crescido no Brasil.

Equipamentos e insumos para a medicina nuclear são, em sua maioria, importados. Isso também dificulta a expansão da área no Brasil?

As dificuldades são imensas. Há muitos fármacos e equipamentos sendo lançados, já usados na Europa e Estados Unidos, aprovados pelos órgãos internacionais, mas que no Brasil demoram mais de dois anos para serem liberados. Os entraves burocráticos são grandes. A licença demora no país por causa das papeladas. Não há ninguém capacitado na Anvisa para dizer se os equipamentos são bons ou ruins. O Brasil é tão paradoxal que quem mais produz radiofármacos aqui é o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), mas ele não consegue atender às demandas da Anvisa. Por questões burocráticas, o mesmo órgão queria que revalidássemos coisas que usamos há 40 anos. O UBI, por exemplo, já é utilizado no México há 10 anos, com sucesso. Aqui ainda vamos começar o processo de liberação.

Como é a situação do Nordeste nesse quesito?

Temos PET no Nordeste inteiro. No Hospital Português temos um dos mais bem equipados serviços de medicina nuclear do Brasil. Iremos, até o início do próximo ano, iniciar os estudos com outra substância para tumores neuroendócrinos e tumores de próstata. No Recife, temos cerca de oito serviços. Salvador também tem serviços de referência. Isso só ocorre, porém, por causa da iniciativa privada. Os centros de referência do estado, como o Inca, no Rio, estão se deteriorando.

SAIBA MAIS 

Medicina Nuclear no Brasil

430 serviços
700 médicos nucleares

O ideal seria 3 x mais

37 radiofármacos comercializados

5 mil PETs-CT realizados pelo Inca desde 2010

23 centros de formação de médicos de medicina nuclear

Serviços de PET-CT

50% no Sudeste
16% no Sul
15% no Nordeste

No Real Hospital Português

900 e 1 mil
procedimentos por mês

5 equipamentos

Fonte: Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear e Real Hospital Português

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