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Acidente com Césio-137 em Goiânia ainda comove, 30 anos depois

Técnico Ricardo Nunes de Carvalho, que participou da missão pelo IPEN/CNEN, prendeu a atenção dos participantes de evento internacional ao relatar histórias do maior acidente radiológico do mundo

Um assunto sensível que ainda mexe com as emoções de quem se envolveu direta ou indiretamente com o acidente com o Césio-137, ocorrido em setembro de 1987, em Goiânia, foi assunto de palestra nesta quarta-feira, 30, às 16h, no "International Workshop on Utilization of Research Reactors”, evento que marca as comemorações dos 60 anos do Reator Nuclear de Pesquisas IEA-R1, do IPEN. Ricardo Nunes de Carvalho, um dos técnicos do Instituto que estiveram presentes nas operações em Goiânia, depois que foi detectado que se tratava de material radioativo, apresentou o tema "Histórias de Goiânia”.

Ele começou sua palestra trazendo dados anteriores ao acidente: foi ainda em maio daquele ano (1987) que Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), onde estava a fonte selada com Cs-137 começou a ser desativado – ele estava abandonado desde 1985. Uma liminar determinou a interrupção dos trabalhos de desativação. No prédio, que estava abandonado, foi deixado o aparelho de radioterapia contendo a fonte com o material radioativo. Em 13 de setembro, o equipamento foi encontrado, desmonstado, e cápsula contendo o Cs-137 acabou indo parar num ferro velho. A partir daí, tudo o que se sabe sobre o maior acidente radiológico do mundo.

Ricardo apresentou números do acidente: 112.800 pessoas monitoradas, das quais 6.500 classificadas como vítimas (apresentavam alguma taxa de dose de radiação ionizante); dessas, 249 também estavam significativamente contaminadas interna e/ou externamente. Os mais graves foram hospitalizados no Hospital Estadual Geral de Goiânia Dr. Alberto Rassi (HGG) e no Hospital Naval Marcílio Dias (HNMD). Dos internados nesse último, quatro vieram a falecer.

"Os que estavam com um grau de contaminação externa transferível ficaram isolados em uma das instalações da Febem [Fundação do Bem-Estar do Menor] e outras foram alojadas no Albergue Bom Samaritano, apesar de estarem descontaminadas não podiam retornar as suas casas, pois estas estavam interditadas. E isso foi doloroso de assistir: as pessoas, de uma hora para outra, perderam tudo, tiveram que deixar para trás sua casa, seus objetos e sua história”, disse Ricardo, emocionado.

Ele destacou a participação de Maria Elizabeth Graciotti, a enfermeira Beth, cuja ajuda aos técnicos do IPEN/CNEN na organização dos radioacidentados no HGG foi essencial. "Ela fez uma grande diferença na minha vida e de muitos que estavam naquela situação”, disse Ricardo. Graciotti faleceu em 2010, vítima de câncer.

Medo e preconceito foram grandes empecilhos durante os trabalhos. Dentre as muitas histórias tristes – e inusitadas – Ricardo contou um colega do IPEN que estava no HGG – o qual ele foi "render” – protagonizou um episódio curioso. Ele já havia trabalhado mais de 12 horas de plantão, estava cansado e abatido, e enquanto conversa com Ricardo na troca do plantão, uma senhora abriu a porta, colocou apenas a cabeça para dentro e perguntou se teria algum problema limpar a área onde ambos estavam.

"Mesmo depois de explicar que aquele local era uma área controlada para que não houvesse contaminação, a senhora mantinha-se temerosa. Meu colega, não tendo mais argumentos para apresentar, num ato inesperado, sentou no chão e começou a arrastar-se, dizendo - Eu não estaria fazendo isso se tivesse algum problema aqui. Aquilo me pareceu um tanto insano, mas funcionou. Convencida, a senhora entrou, passou o pano no chão e recolheu o lixo. Situações ´insanas´ como esssa foram necessárias porque havia muita desinformação”, disse Ricardo.

Outras situações foram relatadas, e a cada lembrança, a emoção de Ricardo. Ele falou do esforço da equipe do IPEN/CNEN para resgatar objetos pessoais das casas interditadas – "aquelas pessoas haviam perdido tudo, qualquer lembrança era muito importante para elas” – uma "missão dolorosa”, também lembrou de episódios em que as pessoas se aproveitavam da notoriedade que o acidente teve para "aparecer” na mídia – "todo mundo achava que podia falar alguma coisa” – e, encerrando sua participação, salientou que o trabalho trouxe aprendizados pessoais e profissionais para toda a vida das pessoas que trabalharam na missão. "Alguns colegas retornaram antes porque não suportaram tanto sofrimento”, disse.

No debate, foram feitas três perguntas: a primeira, se a imprensa ajudou mais ou atrapalhou a missão; a segunda, qual o momento mais doloroso para ele; e a terceira, se houve um plano de gestão de informação, depois que perceberam o desencontro das informações. Ricardo respondeu na sequência: "A imprensa estava no papel dela, a questão eram as pessoas que queriam aparecer a qualquer custo. No balanço geral, acho que ajudou sim. O momento mais difícil para mim [nesse momento, se emociona de novo] foi ver que, de uma hora para outra, aquelas pessoas perderam tudo, parte das suas vidas se foi com o acidente. Quanto à gestão da informação, sim, nós percebemos as falhas e organizamos para que apenas determinadas pessoas falasse a respeito”, finalizou.

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Ana Paula Freire, Jornalista MTb 172-AM
Assessoria de Comunicação Institucional