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'60 anos de produção de radiofármacos no Brasil': IPEN apresenta seu pioneirismo a público no ILP

Pesquisadores mostraram pesquisas e projetos que fizeram história e colocaram o Instituto na fronteira da Medicina Nuclear no País

Quando se fala em energia nuclear, o sentimento mais comum é de receio. Entretanto, são inúmeros os benefícios sociais e econômicos que ela pode gerar. Para falar das aplicações na área de saúde, com foco na medicina nuclear, cientistas do IPEN promoveram nesta segunda-feira, 17, uma série de talkssobre as atividades do Instituto desde que foi produzida a primeira dose de radiofármaco no Brasil, ainda de forma experimental: o Iodo-131 (131I), usado para diagnóstico e terapia de doenças da tireoide.

Esse feito, ocorrido em 1959, marcou o pioneirismo do IPEN e foi fundamental para a viabilização e consolidação da medicina nuclear no País. Ao longo de seis décadas, o Instituto expandiu suas atividades de pesquisa e de produção, tornando-se excelência na área. A série de talks, que ocorreu das 14h às 17h, no Instituto do Legislativo Paulista (ILP) – Plenária Teotônio Vilela, abriu a série de atividades do "60 anos de Produção de Radiofármacos no Brasil: o IPEN na fronteira da Medicina Nuclear”.

"Estamos aqui, nesta casa Legislativa, para apresentar uma parte da área nuclear, que tem sido fundamental para o desenvolvimento do País. É uma satisfação muito grande estar aqui, e agradeço ao ILP por se colocação à nossa disposição. No que depender do IPEN e da CNEN, daremos passos largos em direção à oferta de produtos e serviços visando ao bem estar da população brasileira”, declarou Paulo Roberto Pertusi, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), autarquia federal à qual o IPEN está vinculado.

O superintendente do IPEN, Wilson Calvo, abriu a sessão de talks falando sobre "As várias faces do Instituto mais completo e eclético do Brasil”. Destacou que o Instituto está aberto à visitação e ressaltou a missão de promover a melhoria da qualidade de vida da população brasileira e, à medida que falava de cada Centro de Pesquisa, foi apresentando algumas das mais importantes pesquisas na área de saúde. Citou ainda a parceria com o Governo do Estado, por meio da FAPESP. "Fomos contemplados com R$ 13,6 milhões e uma bolsa extra de Jovem Pesquisador, voltados para a saúde, com aplicação na área de radiofármacos”, disse.

Calvo fez um balanço dos indicadores do IPEN e ressaltou a importância na formação de recursos humanos. "Já formamos mais de 2,8 mil mestres e doutores, e hoje [17 de junho] lançamos o edital para o Mestrado Profissional [em ‘Tecnologia das Radiações em Ciências da Saúde’] específico para profissionais da área de saúde. Também temos convênios acadêmicos com instituições brasileiras e internacionais. Um dos grandes impactos desses convênios nacionais é a transferência de tecnologia para regiões que antes não a dominavam”.

O superintendente destacou ainda o Projeto Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), tema de um dos talks apresentados, as pesquisas em saúde do IPEN nas áreas correlatas, e a produção de radiofármacos, que atende quase 2 milhões de pacientes ao ano. Também mencionou o recebimento da Medalha Mérito Tamandaré outorgada, em 2017, pelo Comando do 8º Distrito Naval (COM8DN) ao Instituto, como um dos inúmeros prêmios recebidos. "Os parceiros dizem a nossa importância”, concluiu.

Passado e presente – O pesquisador Jair Mengatti falou na sequência, sobre "Os bastidores da Medicina Nuclear – Desafios e Esperanças”. Iniciou agradecendo à Constância Pagano Gonçalves da Silva, "Pesquisadora Emérita” do IPEN e precursora dos radiofármacos no Instituto, e fez um retrospecto histórico desde a década de 50, quando foi construído o IEA-R1. Apresentando fotos históricas, desde a inauguração do Reator, das primeiras produções, no prédio do próprio Reator, Mengatti passou pelos destaques a cada década.

"A partir da década de 1960, passamos a produzir outros radiofármacos. Nos anos 1970, tivemos o primeiro bloco do Centro de Radiofarmácia. Em 1979, a medicina nuclear já era real e efetiva no País. Naquela época, o IPEN já vislumbrava a importância do Tecnécio-99 (99Tc). Nos anos 1980, a partir de uma demanda que já existia, foi realizado o primeiro PET [exame de imagens com Flúor-18] no INCOR, um exemplo do pioneirismo do IPEN. Nos anos 1990, adquirimos o Cíclotron de 30MeV e produzimos novos radiofármacos, até chegarmos ao que temos hoje”, afirmou.

Mengatti salientou que é necessária uma infraestrutura mínima para atender os pacientes no tempo certo. O grande desafio, segundo ele, é a logística para transportar radiofármacos. Atualmente, o IPEN comercializa 32 radiofármacos para todos os procedimentos no Brasil. Em termos de produção, o pesquisador acredita que o RMB vá suprir todas as necessidades e tornar o Brasil autossuficiente. "Temos um desafio enorme, que está nas mãos das próximas gerações do IPEN”.

Com o tema "Radiofármacos! O que isso tem a ver com Medicina Nuclear?”, a pesquisadora Elaine Bortoleti de Araújo iniciou com a definição de radiofármacos, afirmando que são "medicamentos únicos por conterem elemento radioativo [radioisótopo] na sua estrutura”. Destacou a expertise do IPEN nessa atividade, que é escopo de regulamentação intensa e constante. "Não se produz em qualquer lugar, precisamos de pessoal treinado e capacitado, e de instalações adequadas, com requisitos de segurança e sanitários”, pontuou.

Bortoletti também explicou como são obtidos os radiofármacos e deu exemplos de suas diferentes aplicações em diagnóstico e tratamento de doenças, não apenas de câncer, destacando sua importância e seu alcance na saúde pública. Em terapia, os radiofármacos são usados na destruição das células tumorais e em outras doenças, como artrite reumática. Em diagnóstico, são utilizados para exames de imagem, como cintilografia ou mapeamento. "Há centenas de diagnósticos possíveis de fazer em medicina nuclear”, disse, mostrando imagens relacionando-as ao radiofármaco correspondente.

O novo e o futuro – Coube ao pesquisador Emerson Bernardes apresentar o que tem sido pesquisado no IPEN para nacionalizar radiofármacos ainda não produzidos no Brasil e para ampliar o espectro de aplicações. "O que há de novo?” foi o tema do talk, que abordou o projeto do Núcleo de Inovação em Medicina Nuclear do Instituto. Bernardes começou fazendo uma provocação: "Quando falamos em energia nuclear, pensamos em como nos proteger. Nunca como usamos a nosso favor. É o que vou propor aqui”.

De acordo com o pesquisador, ensaios pré-clínicos são muito importante como primeira etapa de desenvolvimento de radiofármacos. Citando a fala de Jair Mengatti, ratificou que sempre foi preocupação do IPEN lidar com o que era de mais atual e moderno em radiofármacos no País. "E o que temos, hoje, de mais atual: radiofármaco não é atualizado apenas para terapia e diagnostico do câncer. Isso abre possibilidades, em termos de pesquisa, porque qualquer processo biológico ou patológico pode ser explorado pelo uso do radiofármaco”.

Bernardes mostrou como estão divididas as atividades de pesquisa, desenvolvimento e Inovação do Centro de Radiofarmácia do IPEN. Comentou que alguns radiofármacos são utilizados para processos neurodegenerativos, como Alzheimer. Reiterou que o câncer de mama é o mais comum em mulheres e relacionou incidência e mortalidade, dizendo que, no Brasil, a incidência é menor do que em outros países, porém, a mortalidade é maior.

"Isso ocorre porque o diagnóstico é feito de forma tardia, cerca de 40% quando a doença está em fase metastática. O diagnóstico inicial, mais recomendado, é baseado em biópsia. Enquanto fora leva cerca de 30 dias para o resultado, no Brasil, entre o paciente procurar o hospital e receber o diagnóstico, temos aí um período médio de 7 a 8 meses. Aí, acontece o que a gente chama de heterogeinedade tumoral: doença em estágio avançado com metástase. Dependendo da fase da doença, você não consegue mais a biopsia como indicador”, explicou.

Bernardes também falou como tumores respondem ou não a tratamentos, mostrando imagens com exemplos de tipos de radiação e sua capacidade de penetração quando o radiofármaco é injetado no paciente. Concluiu falando de pesquisa com molécula nova, em estágio pré-clínico, usando como alvo PSMA. "O 18F-PSMA é usado para diagnóstico. Estamos fazendo estudos para viabilizar ou ampliar o uso dessa molécula para todo o Brasil e também para a terapia”.

Reatores – Com o tema "RMB – Construindo um futuro melhor”, o engenheiro José Augusto Perrotta, coordenador técnico do Projeto Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), antes de apresentar esse empreendimento, falou sobre Reator Nuclear de Pesquisa, apresentando conceitos básicos como da energia nuclear, desde o átomo, radioatividade, reações nucleares e suas aplicações. Mostrou a diferença entre reator de potência, para geração de energia, e de pesquisa, caso dos reatores da CNEN.

Fazendo um breve retrospecto histórico do Reator IEA-R1, do IPEN, Perrotta destacou os benefícios dessa instalação a sociedade. "É a base da CNEN é isso: transformar C,T&I em benefícios para a sociedade. Ao construirmos um reator, jogamos uma semente, e o que se forma ao redor é um grande centro gerador de conhecimento e desenvolvimento tecnológico e inovação, como foi o caso do IPEN, como, esperamos, seja o caso do RMB. Mas ainda não sabemos como fixar essas pessoas, e esse é um desafio”.

Sobre o RMB, Perrotta disse que é um "sonho” que ele espera se tornar realidade o quanto antes. "Todas as apresentações aqui mencionaram o RMB, porque é uma infraestrutura fundamental para aplicações sociais e industriais estratégicas, e de desenvolvimento do País. Hoje importamos em torno de 23.175 Ci [de curie, unidade de medida de atividade radioativa] de Molibdênio-99, cada Ci custa 680 dólares. Com o RMB, esperamos produzir 54 mil Ci, ou seja, mais que o dobro. Vamos substituir todos os radioisótopos que são importados hoje e isso vai gerar economia e autossuficência para o Brasil”.

Perrotta fez uma apresentação com imagens do futuro empreendimento, especificando cada prédio e área de atuação. Encerrou dizendo que o Brasil detém a tecnologia do ciclo do combustível – o enriquecimento de urânio é feito em Aramar, na região de Sorocaba, onde estará sediado o RMB e outras expertises. "Temos a capacidade de produzir os insumos e sabemos operar um reator. Também somos capazes de lidar com a questão das licenças para operação. Precisamos de parcerias para a parte da engenharia”.

Perrotta citou o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), a Marinha do Brasil, a Amazul (Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A.), a Financiadora de Projetos (Finep), a CNEN e suas unidades, bem como grandes laboratórios nacionais, como o Projeto Sírius e o Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS) como instituições parceiras fundamentais para o sucesso do RMB.

"O RMB é a tecnologia nuclear a serviço da vida, com um incalculável valor social, já que também será um centro de pesquisa nuclear de referência no futuro, podendo abrigar instalações em outro patamar tecnológico das atualmente existentes", concluiu Perrotta.

Mostrando sua importância – Ao final, o diretor-técnico e de Operação da Amazur, Francisco Roberto Portella Deiana, parabenizou o IPEN pela iniciativa de se apresentar no ILP e fez uma indagação sobre o número de radiofármacos comercializados pelo IPEN. Em seguida, o físico Silvério Crestana se manifestou, reiterando as palavras de Deiana sobre a importância de o IPEN se mostrar à sociedade e sugerindo que essa atividade seja ampliada para outros fóruns formuladores das principais políticas públicas para inovação.

"Eu sugeriria de o IPEN reunir o conjunto de seus cientistas para fazer uma semana, um grande seminário do IPEN, para mostrar tudo o que está sendo desenvolvido em todas as áreas – muito pioneirismo, qualidade e inovação. Vai dar um orgulho muito grande para deputados e parlamentares que formulam políticas publicas”, afirmou Crestana.

Encerrando o evento, Paulo Pertusi e Wilson Calvo mais uma vez agradeceram ao ILP e se colocaram à disposição para novas atividades que possam levar ao conhecimento da sociedade tudo o que o IPEN realiza. O evento no ILP integra a série de atividades pelos 60 anos de produção de Radiofármacos no Brasil. Foi organizado pela bolsista Adriana Miranda, no âmbito do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, da FAPESP.

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